quarta-feira, 6 de maio de 2015

China, indústria do mundo

O que o contrato de patrocínio com a Parmalat representou para a equipe de futebol do Palmeiras, o que representou para o futebol mundial e, o que isso tem a ver com a nossa prateleira cheia de mercadorias chinesas?
É uma longa história, que começa antes da geração dos nossos pais e vai ter consequências talvez até depois dos nossos filhos.
Não o contrato Parmalat! Esse só durou de 1992 até 2000. Oito anos que mudam a história do clube.

Se é interdisciplinar a proposta de perceber o que impacta nossas vidas, por quê não passar pelo futebol? Paixão nacional, ou talvez mundial, que tem no seu mecanismo muita ciência pra gente explorar dos temas gestão e econ​omia!
Um clube tem corpo político, administrativo e técnico.​ ​​Lida com expectativas do seu público e, tem que apresentar resultado num ambiente muito competitivo.

Mas como nasce um clube e quanto tempo leva para construir sua história?
O principio não é feito de glórias, requer esforços e sacrifícios, aprendizados, treinamento contínuo, aposta nas categorias de base, evolução, maturidade e só daí, conquistas.


Em Agosto de 1914 o "Palestra Itália" (Palastrae - do grego, lugar de treino) foi fundado por imigrantes italianos, no estado de São Paulo.
Seus fundadores, em sua maioria trabalhadores da Indústria Matarazzo, publicaram uma convocação de esportistas num jornal da colônia italiana empolgados com a visita de clubes do futebol italiano ao Brasil. 
Cinco meses depois, em Janeiro de 1915 entrou pela primeira vez em campo contra o forte time Savoia Votorantim e venceu por 2 a 0, conquistando seu primeiro campeonato: Taça Savóia.
Em 1942, quando o Brasil entra na II Guerra Mundial, uma lei do Governo Vargas obriga a troca do nome. O time passa a chamar-se Sociedade Esportiva Palmeiras. Logo em seguida, seu próximo jogo definiria o campeão paulista. Já com o novo nome, marca 3 a 1 contra o São Paulo e fatura mais um título.

Resumindo a história, os números devem detalhar melhor as conquistas. Aos 85 anos de trajetória, o Palmeiras saiu do século XX avaliado como o maior campeão brasileiro tendo 37 dos principais títulos nacionais. Com aproximadamente 15 milhões de fiéis torcedores.
Mas o que vem a seguir é uma outra realidade. Completando seu centenário, o Palmeiras amarga alguns rebaixamentos consecutivos e encontra dificuldade para remontar uma equipe com qualidade e desempenho consistentes.
Nem de longe se parece com o clube glorioso do fim do milênio.

Talvez não coincidentemente, o que dividiu esses dois períodos foi o contrato com a Parmalat. Uma  arriscada manobra da direção em 1992 para viabilizar uma super equipe com recurso de um patrocinador milionário, delegando e terceirizando o que até então era de competência interna do corpo administrativo do clube. Especializando-se mais em gerir a burocracia do que o seu próprio negócio. Criando dependência financeira e principalmente técnica.

O resultado por algum tempo foi gratificante, prova disso, Parmalat ainda é o patrocinador mais lembrado pelos torcedores palmeirenses, como uma época de muitas conquistas. Será mesmo?
Talvez ainda não perceberam o papel que teve aquele contrato a longo prazo.
O futebol estava indo para outro patamar e para outros valores no mundo todo e por aqui o Palmeiras apoiou essas mudanças alavancado por seu patrocinador. Tanta era a fusão, que não se diferenciava muito empresa e clube, parecia uma só identidade.
Mas por fim, ao término do jogo de interesses, o clube viu sair pela porta o dono do dinheiro, levando consigo o apoio financeiro e desmontando o plantel.

Quão drástico poderia ser o impacto de desmontar um corpo técnico?
Me perdoem os lusitanos mas pra quem já teve Dener, a Portuguesa não está longe de virar o que podemos chamar de 'Juventus da Móoca'. Como hoje também o Palmeiras recebe o apelido de 'Guarani da Capital'.
Essas comparações resumem a decadência de clubes que foram grandes e competitivos mas hoje lutam para se manter na primeira divisão ou até mesmo nos grupos de acesso.
Drible não ganha jogo, gol vale por um confronto apenas e cada temporada conta pontos do zero. Não há saldo que garanta vantagem na competição seguinte. Somente uma equipe bem montada, com entrosamento, disciplina e o mais importante​, amor à camisa, podem fazer a diferença. 
(A exemplo do mundial conquistado pelo Corinthians em 2012 sem a presença de estrelas. Só pra constar, eu sou santista).
Se por um lado o período vencedor não garante vitórias na atualidade, por outro lado deveria ser fácil desvencilhar-se do fantasma de ter sofrido um desmembramento técnico, retomar a gestão do time e consolidar uma equipe campeã novamente. Afinal a instituição não foi desmontada, ainda tem estádio, tem CT, tem público fiel. Por quê então vive uma crise?
Nesse novo mundo pós Parmalat o custo de montar uma boa equipe é outro, a dificuldade em mantê-la é muito maior. Futebol marketeiro e corporativo. Jogadores de carreira, motivados por riqueza, com passes caros e pouca ou nenhuma fidelidade a um brasão.

A indústria do mundo

Com a quantidade, qualidade e preço dos produtos importados invadindo o mercado global, podemos comparar esse momento da economia consumista à fase do contrato de patrocínio Palmeiras/Parmalat.
Delegamos total gestão do parque de máquinas. Entregamos pronto, conhecimentos que levaram décadas para desenvolvermos, deixamos o nosso público se apaixonar pela conquista fácil e barata.
Mas tente adivinhar como estará nossa equipe no futuro. Aparato industrial obsoleto, carga tributária produtiva inviável, profissionais desqualificados ou sem campo de trabalho.


Essa é uma responsabilidade diária de todos.
Ao importador e ao atacadista fica a pergunta: apesar do lucro atual parecer vantajoso, pra quem esperam vender seus produtos quando faltar emprego?
E ao consumidor, fica o alerta: hoje escrevo este artigo num momento de plena retração da economia brasileira. Já se perguntou qual o seu papel na balança comercial do país? Ou qual o montante que juntos enviamos pra China diariamente?
Quanto tempo pra se recuperar disso?
Quando começaremos?

4 comentários:

  1. Genial Hugão! Que visão brother! Parabéns pelo texto sucinto e rico em informações.
    Bjoo do goooordo wooooow!

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  2. Ótimo texto, eu sempre falo que essa corrida aos concursos que os Brasileiros tanto fazem e almejam é um erro grave pois quem produz a riqueza não é o estado e sim as industrias e nota-se que cada vez menos as pessoas querem trabalhar na industria pois afinal de contas dá muito trabalho né?

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  3. Falar de economia usando exemplos do futebol: agora entendo! E só pra constar, também sou santista ;)

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  4. No livro "Assassinato de Reputações", Romeu Tuma Jr. fala - entre outros assuntos - sobre a parceria MSI-Corinthians (que ele investigou). No fundo, aquilo servia apenas para a máfia russa lavar dinheiro no Brasil. Não acredito que tenha sido diferente com o Palmeiras. A corrupção da FIFA, que veio à tona recentemente, ainda vai revelar muita sujeira no mundo do futebol. Já no quesito econômico, o PT continua destruindo o país (e entregando nossas riquezas à China e à Rússia). Quando não tivermos mais recursos a explorar, seremos descartados como bagaço de laranja.

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